Tesouro Direto cai até 17% na semana: vale vender o título agora?

Títulos do Tesouro perderam até 17% na semana após o 2º turno. Veja quem perde de verdade, quem não deve vender e como funciona a marcação a mercado.

Por Amigo Rico

1 de novembro de 2026

17,19%: foi quanto o Tesouro IPCA+ 2050 perdeu de preço entre 23 e 30 de outubro de 2026, na semana seguinte ao segundo turno da eleição presidencial, segundo levantamento do InfoMoney com dados do Tesouro Nacional. Quem tinha R$ 10 mil no título viu o saldo cair para cerca de R$ 8.281 no extrato.

A queda atingiu prefixados e títulos atrelados à inflação de prazo longo, porque as taxas oferecidas pelo Tesouro subiram com força a partir de 26 de outubro, primeiro dia de negociação depois da votação. Preço e taxa andam em sentidos opostos: quando o mercado passa a exigir juro maior, o título antigo, que paga menos, vale menos para quem quiser comprá-lo de você. Isso se chama marcação a mercado, e o tamanho do prejuízo real depende de qual dos perfis abaixo é o seu.

 

Nove títulos no vermelho: a variação da semana

TítuloAlta da taxaQueda no preçoR$ 10 mil viraram
Tesouro IPCA+ 20500,86 ponto17,19%R$ 8.281
Tesouro IPCA+ 20401,01 ponto11,99%R$ 8.801
IPCA+ com Juros Semestrais 20600,96 ponto11,41%R$ 8.859
Prefixado com Juros Semestrais 20372,34 pontos11,24%R$ 8.876
Tesouro Prefixado 20322,47 pontos10,29%R$ 8.971
IPCA+ com Juros Semestrais 20450,92 ponto8,65%R$ 9.135
IPCA+ com Juros Semestrais 20371,05 ponto7,00%R$ 9.300
Tesouro IPCA+ 20321,17 ponto5,92%R$ 9.408
Tesouro Prefixado 20292,20 pontos3,83%R$ 9.617

Fonte: Tesouro Nacional, com cálculos do InfoMoney, comparando os fechamentos de 23 e 30 de outubro.

A tabela mostra por que o prazo pesa mais que a alta da taxa. O IPCA+ 2050 teve a menor subida de juro entre os títulos da lista e, mesmo assim, a maior perda, porque cada ponto a mais é descontado por quase 24 anos. O Prefixado 2029, com alta de 2,20 pontos, caiu bem menos por vencer em pouco mais de dois anos.

O dia 26 foi o mais tenso. A plataforma do Tesouro Direto abriu só às 12h13, foi suspensa às 16h25 e voltou apenas para o fechamento. O Prefixado 2032 chegou a 15,78% ao ano na abertura, o maior nível desde o lançamento do título, em fevereiro de 2025, número que aparece também na base de preços e taxas do Tesouro Transparente. Segundo o InfoMoney, o Tesouro cancelou os leilões da semana e recomprou cerca de R$ 31,6 bilhões em títulos na segunda e na terça-feira.

Gráfico financeiro em tela mostrando linha em queda e área vermelha
Taxas em alta derrubam o preço dos títulos longos. Imagem ilustrativa. Foto: Rafael Minguet Delgado / Pexels

 

Até o vencimento: a perda do extrato não chega ao seu bolso

Para quem comprou e pretende ficar com o título até o fim, a queda é uma fotografia do dia, não um prejuízo. O Tesouro paga no vencimento a rentabilidade contratada na compra, qualquer que seja o preço no meio do caminho.

Um exemplo com a base oficial: em 23 de outubro, uma unidade do Tesouro Prefixado 2032 custava R$ 535,28, à taxa de 12,90% ao ano. Na manhã de 29 de outubro, o preço de resgate antecipado estava em R$ 481,34. No vencimento, em 1º de janeiro de 2032, aquele mesmo título paga R$ 1.000. Descontado o Imposto de Renda de 15%, que vale para aplicações de mais de 720 dias, sobram cerca de R$ 930 por unidade, antes da taxa de custódia da B3. A conta não muda por causa da eleição.

No IPCA+ vale a mesma lógica, com a diferença de que o valor final acompanha a inflação do período mais a taxa fixa contratada.

 

Resgate antes do prazo: quando o prejuízo vira dinheiro perdido

Quem vender agora transforma a oscilação em perda. No exemplo do prefixado, a unidade comprada a R$ 535,28 e vendida a R$ 481,34 deixa um buraco de R$ 53,94, pouco mais de 10% em uma semana. Comprar numa sexta e vender na sexta seguinte rende uma perda maior que a da tabela, porque o preço de compra é sempre um pouco mais alto que o de venda.

 

Vender no prejuízo gera imposto?

Não. IOF e Imposto de Renda só incidem sobre ganho, segundo o InfoMoney. Isso não torna a venda vantajosa: só significa que o Leão não aumenta a perda.

O resgate antecipado faz sentido para quem tem uma despesa com data marcada e nenhuma outra reserva para cobri-la. Para quem não precisa do dinheiro, vender por medo apenas trava o pior preço da semana.

 

Reserva de emergência em IPCA+ longo: o perfil mais exposto

O caso mais delicado é o de quem guardou o dinheiro de imprevistos em um título de 2040 ou 2050 atraído pela taxa. Se a emergência aparecer agora, o resgate sai com até 17% a menos. O Tesouro Selic se comportou de outro jeito: o Selic 2028 valia R$ 20.141,70 para resgate em 23 de outubro e R$ 20.182,01 na manhã de 29 de outubro, segundo o Tesouro Transparente. Subiu, em vez de cair.

Isso não significa vender o IPCA+ longo no pior momento para trocar de título. A saída mais prudente é direcionar os próximos aportes da reserva para o Tesouro Selic até ela cobrir de três a seis meses de gastos, e deixar o título longo com o objetivo de longo prazo. A semana anterior ao segundo turno também foi analisada em Tesouro Direto após a eleição: o que fazer se as taxas dispararem.

 

Compra nova com prefixado perto de 15%: o que pesa na decisão

Do lado de quem tem dinheiro para aplicar, o cenário inverteu. No fechamento de 30 de outubro, os prefixados pagavam entre 14,96% e 15,36% ao ano e os títulos IPCA+ entre IPCA + 7,28% e IPCA + 7,89%, contra 12,31% a 12,51% e IPCA + 6,55% a 6,68% no fechamento de 9 de outubro, segundo o InfoMoney. Travar uma dessas taxas só funciona, porém, para quem aguenta oscilações iguais às desta semana no extrato até o vencimento.

O Imposto de Renda também entra na conta, porque cai com o tempo de aplicação:

  • até 180 dias: 22,5% sobre o ganho;
  • de 181 a 360 dias: 20%;
  • de 361 a 720 dias: 17,5%;
  • acima de 720 dias: 15%.

Como se trata de decisão financeira com risco, quem tem patrimônio relevante nesses títulos ou dúvidas sobre o próprio perfil deve conversar com um planejador financeiro certificado antes de mexer na carteira. Nenhuma taxa de compra é garantia de que o preço não vá cair mais.

Se você comprou antes da eleição e não vai precisar do dinheiro até o vencimento, então a melhor resposta é não fazer nada e parar de olhar o extrato todo dia. Se você precisa resgatar nos próximos meses e não tem reserva em Tesouro Selic, então vale vender só o valor necessário e deixar o restante render. E se você tem dinheiro novo e horizonte longo, então as taxas atuais são uma oportunidade, desde que a compra seja feita aos poucos, e não de uma vez.